Vendaval
Foi um daqueles dias indistinguíveis, de emoções cruzadas e intensas,
em que o belo se confunde com os sentimentos manchados de dor.
Eu e ela saímos de carro, após um inesperado episódio ansioso meu.
Ela queria ajudar. E eu queria sumir.
Nos conhecemos há pouco tempo, uns dois meses.
Ela, uma mulher de ímpeto e vivacidade, capaz de encantar até o mais quieto ser vivente.
Eu, um cara imerso em poesia, música e na minha infernal ansiedade.
De algum modo, isso pareceu — e ainda parece — lindo.
Aos poucos, a conversa foi se abrindo num lugar de cuidado e atenção.
Ela tinha um jeito carinhoso de, pouco a pouco, me acalmar.
Eu, teimoso, não queria deixá-la confundir minha mente com amor.
Eventualmente chegamos ao litoral, onde, num morro alto e escuro, paramos o carro.
Na minha mente não havia espaço para qualquer carícia,
mas ouvir a voz dela foi quebrando o transe em que me encontrava.
De repente, junto aos ímpetos de tristeza, encontrei um sentimento diferente.
E, guiado pela voz dela, me deixei beijar.
O vento rugia poderoso, balançava o carro. Era uma noite incomum.
O fato de estarmos em um lugar tão alto impunha em nós um certo medo,
mas, durante o beijo, esse medo se misturava a algo novo, insano:
uma fagulha, uma faísca, um prenúncio de fogo.
De repente, uma peça de roupa já não estava mais no corpo dela,
e outra havia deixado o meu.
O beijo, intenso, começou a ganhar contornos de desejo.
E enquanto o medo do vento e de sermos descobertos perdia o sentido,
todo o resto ganhava um novo significado.
Ela nua me empurrou para o banco de trás e se sentou em mim.
Eu, ainda tentando me adaptar ao desconforto do carro, a penetrei.
Minhas mãos buscavam apoio em qualquer parte do automóvel
e, ao mesmo tempo, a seguravam firme, como se quisessem torná-la indivisível de mim.
O calor dentro do carro aumentava; os vidros, já embaçados pelo nosso suor.
Não havia mais controle: os movimentos simplesmente aconteciam.
Eu confundia o cheiro do nosso corpo enquanto sentia ela apertar meu pau com sua buceta.
E, num momento de coragem e fervor, saímos do carro, para o vento.
Quase não conseguíamos ficar de pé, tamanha a força da ventania.
A areia, impulsionada pelo ciclone, cegava nossos olhos;
as folhas das árvores se agitavam como em desespero.
E, nessa furiosa festa de Iansã, a penetrei por trás.
Nossos gritos de prazer passaram a se misturar ao rugido do vendaval.
O barulho era ensurdecedor.
O frio, intenso.
O orgasmo, inesquecível.
Atônitos com nosso feito, voltamos ao carro, exaustos e plenos.
Aos poucos, nos vestimos e decidimos voltar para casa.
No caminho, o vento continuava a desenhar formas nas árvores e na areia.
E, por um segundo, eu entendi tudo o que ela significaria a partir dali.


